Entrevistar é Cuidar

Entrevistar ou ser entrevistado é um processo que deve ser previamente preparado pelas partes para que não se resuma unicamente à colocação e resposta a perguntas sobre experiência ou competências profissionais. Isso não é entrevistar, é inquirir. É o que muitas vezes digo aos mais novos que comigo trabalham.

Entrevistar é um processo holístico ou mais abrangente, e por inerência mais complexo, muito mais subjectivo, talvez por esse facto não existam muitos recrutadores no mercado de trabalho que sejam genuinamente bons entrevistadores. É, em boa verdade, um processo de validação e interpretação que envolve tanto a vertente profissional do candidato, onde se incluem competências e experiência técnica, como a vertente pessoal ou a sua personalidade, as suas vivências pessoais e as suas expectativas individuais.  O mais difícil é explorar de forma subtil, mas eficaz os dois lados da mesma moeda.

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Escolhas…

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Alguém dizia que a vida são dois dias. Eu digo que mais tarde ou mais cedo somos chamados a responder pelas nossas escolhas ou pela falta delas, pois dificilmente conseguiremos escapar eternamente por entre os pingos da chuva.

Escolha! Independentemente de ter o aval, a concordância ou a compreensão dos que estão à sua volta. Escolha e respeite a sua verdade interior porque senão a Vida encarregar-se-á de lhe dar as escolhas que sobraram de quem já escolheu em livre consciência. Escolha! E faça o que verdadeiramente gosta!

O amor e a fibra da comunidade

Se queremos saber qual é a fibra da comunidade social em que vivemos sugiro que nos sentemos num café e conversemos casualmente com as pessoas à nossa volta. Por certo, não me refiro a conversas sobre a meteorologia ou futebol, mas aquelas em que as pessoas nos contam histórias das suas vidas e das pessoas que delas fazem parte. Essas sim nos dizem em que comunidade vivemos.

Nos anos em que vivi na província percebi que em aldeias ou vilas muito pequenas o único verdadeiro ponto de encontro e per si lugar social é o café, onde ao fim de semana todos se encontram e por aqui ficam a manhã toda à conversa. No início, confesso, os meus hábitos lisboetas carregados de condescendência não me permitiram ver as pessoas à minha volta e muito menos aquelas que estavam desejosas de conversar comigo. Tudo me parecia inconveniência e coscuvilhice até ter aparecido a D. Julieta.

Conheci a D. Julieta num sábado gelado em que o calor humano do café não deixava nenhuma cadeira disponível, a não ser a terceira da minha mesa onde eu estava a tomar o pequeno almoço com a minha filha. Perguntou-me se se podia sentar e eu ajeitei-lhe a cadeira.

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Factos da Vida

Estou a escrever um artigo sobre o mercado de trabalho português e embora esse facto só por si não tenha grande interesse, acabei por me lembrar de uma conferência sobre trabalho em que participei no longínquo ano de 2013.

Nessa altura, e perante representantes de sindicatos, defendi que dificilmente Portugal conseguiria voltar a alcançar uma taxa de desemprego abaixo dos 6%, não por falta de vontade, mas porque essencialmente a crise tinha tido o condão de expor um conjunto de fragilidades do nosso mercado de trabalho e sistema de apoio à inserção na vida activa que dificilmente se resolveriam sem uma reforma estrutural. Do que falava eu?

De profissionais desempregados de longa duração, sem qualquer capacitação técnica e intelectual e que na prática terão inúmeras dificuldades para regressar ao mercado. Ou melhor dizendo, profissionais que não sabem fazer nada que verdadeiramente se enquadre neste novo Mundo.

Em 2018, tivemos uma taxa de desemprego de cerca de 7%. É isto.

Sobre a felicidade

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Vivemos tempos estranhos. Não há nada que se consiga manter no seu estado mais genuíno e mais honesto. Há sempre os abutres à espreita que consideram interessante desmembrar para instrumentalizar em benefício dos seus interesses individuais ou particulares. Neste suposto mundo aberto e globalizado nada sobrevive à lei da interpretação superficial, assim foi com o coaching, com as frases inspiradoras ou até mesmo com as técnicas de auto-ajuda que entupiram as prateleiras de livrarias, papelarias e áreas de serviço.

Os tempos são tão estranhos que há organizações que julgam ser capazes de desenvolver e implementar práticas que fomentem a felicidade dos seus colaboradores, ora por construírem uma nova sede, ora por trazerem para dentro do espaço empresarial actividades supostamente lúdicas. Curiosamente nada que incentive o trabalhador a ter vida pessoal, mas antes tudo o que potencie o crescimento dos negócios e dos lucros do empregador. Só curiosamente. Não que haja alguma intenção por detrás da necessidade de definir o que são as “melhores práticas para a felicidade”.

Tinha pensado não escrever nada sobre isto. Tinha pensado. No entanto hoje tirámos esta fotografia e o que começou por ser uma sessão fotográfica corporativa e formal tornou-se naturalmente noutra coisa qualquer quando percebemos que havia adereços. O melhor de nós sobressaiu.

A felicidade é de cada um de nós. Não está, nem pode estar entregue à organização e ao empregador. Senão, todos sabemos o que vai acontecer, certo?

Créditos: NC Produções

Recomendar sem falar

Um destes dias, num jantar de amigos, foi-me apresentada uma pessoa que reconheceu o meu nome de anúncios de emprego que tinha visto algures no Sapo Emprego. Após alguma hesitação,  e quando sentiu que tinha finalmente uma oportunidade perguntou-me timidamente se me podia recomendar a irmã que andava há algum tempo à procura de trabalho. 

Acenei-lhe positivamente com a cabeça e tentei alcançar a minha mala para lhe entregar um cartão profissional, mas antes que o conseguisse fazer, e num tom obviamente preocupado e comovido, diz-me “Desculpe fazer-lhe este pedido, mas há 2 anos que ela procura trabalho e está tão triste que anda a ser acompanhada pelo psicólogo”.

Compreendo a preocupação de irmão e sobretudo compreendo que há por aí muito recrutador que quer saber tudo antes sequer de conhecer a pessoa em causa, mas uma entrevista deve ser uma página em branco que é escrita entre o recrutador e o candidato. Esta página sem nada escrito à partida é fundamental para não potenciar condicionalismos, actos discriminatórios e sobretudo para aumentar a relação de confiança que deve nascer numa entrevista.

Se me quiserem recomendar amigos, colegas ou familiares não acrescentem informação desnecessária, pois na maioria dos casos não estarão a ajudar. Na realidade, eu não quero, nem preciso de saber nada da pessoa de início para gostar dela como profissional após a entrevista.

Quem é Ada Hegerberg?

Quem é Ada Hegerberg e por que motivo ter sido deixada de fora do Mundial de França 2019, por parte da Federação Norueguesa de Futebol, pode ser notícia de destaque?

Na realidade, e até para percebermos como as notícias são veiculadas quase sempre de forma tendenciosa, Ada Hegerberg que é nada mais nada menos que a grande estrela da selecção feminina de futebol da Noruega, tornou-se notícia nos últimos dias porque decidiu não representar a sua equipa nacional no Mundial de França 2019 e não o contrário como noticiado. Outras jogadoras norueguesas, nomeadamente a sua irmã Andrine, seguiram-lhe o exemplo.

Talvez se estivéssemos a falar do “futebol” que nos entope a televisão diariamente ao serão poderíamos pensar que estaríamos a falar de dinheiro ou talvez até numa birra das manas Hegerberg, mas não é este o caso. Tanto Ada como Andrine estão de candeias às avessas com a sua federação simplesmente porque as condições de competição e pagamento de salários e prémios de jogo entre a equipa feminina e a equipa masculina não são iguais. 

Pessoalmente, o que considero louvável é o facto de Ada ter sido capaz de ver para além da sua carreira e dos seus próprios interesses, não apenas em prol das suas colegas de equipa, mas também em benefício de todas as jogadoras de futebol, profissional ou amador, que todos os dias competem com menos condições. Ada Hegerberg recusou-se a perpetuar o comportamento de vítima e através das suas acções e influência impulsionou a mudança que já está a acontecer.