A Astrologia e a nossa Vocação

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Olho em redor, do meu lado direito na secretária tenho uma pilha de livros com listas detalhadas de palavras-chave dos planetas, usadas em diferentes interpretações, e do outro, à minha esquerda, o livro das efemérides, dois livros de tabelas de casas astrológicas para sistemas diferentes de divisão e por fim no topo os meus cálculos manuais de mapas, exercícios que têm feito parte da minha avaliação periódica. A minha secretária está um caos, o que convenhamos não é usual em mim. Esta é a minha realidade hoje. Voltei a usar lápis e borracha, voltei a usar o meu tempo livre para literalmente devorar o que todos estes livros contêm, e sobretudo, voltei a incorporar o espírito de sacrifício que um devoto da sua arte, independentemente do grau de envolvimento, deve possuir. A realidade é que voltei a estudar.

Escrevo este artigo, não porque precise de algum tipo de aprovação para os estudos que escolhi prosseguir e que sei que farão parte integrante da minha profissão, mas porque acredito que é importante que a minha rede de contactos compreenda porque escolhi a Astrologia e não a Psicologia ou os Recursos Humanos e porque acredito que brevemente estarei mais focada na vocação individual do que na gestão de carreira.

A Astrologia sempre fez parte da minha vida e acredito que quem acaba por estudar esta linguagem universal está de alguma forma destinado a fazê-lo. Eu, tal como todos os outros, dedicaremos o resto das nossas vidas ao seu estudo; muitos de nós seguirão abordagens diferenciadas dentro do ramo principal, muitos eventualmente acabarão por defender que a Astrologia deve ser aceite como uma ciência, o que não é o meu caso nem acredito que seja o seu propósito, muitos farão dela uma ferramenta ao serviço de um propósito enviesado ou de um interesse pessoal e muitos simplesmente serão maus profissionais, não usando correctamente as diferentes dimensões do seu conhecimento. Estudar Astrologia permitiu-me primeiramente resolver as minhas próprias lutas e desafios interiores, mas essencialmente devolveu-me uma dimensão espiritual e metafísica que me confere equilíbrio emocional e físico. Algo que falta a muitos dos profissionais que acompanho todos os dias.

Embora ela tenha estado sempre presente, nunca foi minha intenção incorporá-la na minha profissão, mas sim usá-la para benefício próprio e só quando me cruzei com os escritos de Dane Rudhyar decidi que queria abraçar este desafio de uma forma séria e comprometida, em prol dos outros. É um facto que nem todos gostarão do estilo muito particular de Rudhyar, mas no meu caso há livros que já reli várias vezes e sempre que há um tema que quero clarificar é aos seus ensinamentos que volto. A verdade é que por ter abraçado seriamente os estudos astrológicos, muitos outros temas entraram na minha vida também, nomeadamente a Psicologia, a Filosofia, a Cosmologia, a História, a Astronomia, a Mitologia e as diferentes abordagens psicoterapêuticas. Nos últimos anos, desenvolvi a minha dimensão espiritual, contudo foi-me dada igualmente a oportunidade de crescer intelectualmente e isso tem beneficiado todas as pessoas com que trabalho.

Esse crescimento pessoal e profissional não teria sido possível se tivesse optado por estudar Psicologia ou Recursos Humanos, ainda que o seu estudo genericamente falando tenha relevância para o meu trabalho, e por outro lado, fosse socialmente muito mais fácil a credibilização do meu posicionamento no mercado. Apesar de ser evidente uma compensação óbvia em termos de estatuto social, o meu problema com a escola convencional foi sempre o confronto com o excesso de rigidez associado a um certo desprezo pela curiosidade intelectual que considero absolutamente desmotivante, mas também muito limitativo na abordagem holística aos desafios. Acrescido ao facto de não ter qualquer interesse em estatuto social e hierárquico. O crescimento individual que me foi sendo pedido aconteceu por via da Astrologia, mas só foi possível pela oportunidade que reconheci nos anseios de muitos profissionais que acompanhei.

Todos os profissionais que procuraram os meus serviços traziam consigo uma vontade expressa em desenvolver estratégias de gestão de carreira e pesquisa de emprego, mas também, ainda que nalguns casos de forma inconsciente, uma necessidade quase existencial de compreenderem o que estão aqui a fazer e qual é verdadeiramente o seu propósito, o seu caminho nesta vida. Por muito que se queira e se invista em dezenas de sessões de psicoterapia, a psicologia e certamente os recursos humanos também, não têm respostas para anseios filosóficos ou metafísicos do individuo, ao contrário da Astrologia.

Se a Filosofia é uma tentativa de dar sentido às coisas, de alcançar compreensão e perspectiva em relação às diferentes áreas da vida e se a metafísica dá ao indivíduo uma maior compreensão sobre a natureza da realidade e da sua existência, a verdade é que na Astrologia podemos encontrar elos que nos permitem interligar as duas dimensões em prol da existencialidade de quem procura os seus benefícios. A Psicologia e os Recursos Humanos desenvolveram-se por caminhos opostos que em nada se correlatem com a dimensão transcendental da existência ou em relação cosmológica, do nosso passado extradimensional, das circunstâncias da nossa existência material aqui e agora e dos desafios futuros que vamos ter de alguma forma abordar para crescer em consciência.

Através da Astrologia eu sei como é que um determinado individuo se manifesta em termos de personalidade, onde está a sua expressão máxima de consciência, ou pelo menos o seu potencial, qual é a sua  persona publica, como é que ele interage com os outros e em que estilo desenvolve as suas relações, assim como eu sei em que ambiente familiar cresceu, como se relacionou com o seu círculo familiar mais próximo e alargado, a sua relação com as artes, com o dinheiro, o que o motiva verdadeiramente e já agora onde é que Marte lhe vai dar uma ajuda para chegar ao cume da montanha. Com a Astrologia eu vejo isto e muito mais, isto é eu vejo todas as dimensões daquela pessoa e no contexto que lhe é dado à priori e que é a sua vida.

Apesar de reconhecer os benefícios e o valor da Psicologia, é muito provável que fosse necessário usar diferentes metodologias psicoterapêuticas e vários tipos de assessment cognitivos, de personalidade e de motivações só para abordar todos estes temas que são fundamentais para o desenvolvimento e bem-estar do individuo, em todas as suas dimensões. Mesmo que tal fosse possível, não seria viável abordar tudo isto de forma integrada e única como é efectivamente possível na Astrologia.

A Astrologia obrigou-me a assumir um compromisso de uma vida, mas em simultâneo deu-me profundidade, mais consciência e um sentido de propósito que dificilmente seria reconhecível de outra maneira, mesmo que “científica”.

1 Comentário

  • […] do recurso à Astrologia. Sobre o meu interesse na Astrologia em geral pode ler o meu artigo A Astrologia e a nossa Vocação, mas sobre o meu interesse particular pela História e pela compreensão, às vezes quase […]