A importância de perguntar em entrevista de emprego

Um dos maiores desafios que tenho de resolver quando estou a preparar um profissional para uma entrevista de emprego está relacionado com a percepção que este tem do seu papel naquele contexto em específico. Ninguém nos ensinou desta forma, mas de algum modo fomos assimilando a ideia de que nós somos entrevistados e o empregador decide se somos a pessoa para a função. Talvez fosse assim no mundo do “antigamente” em que a fidelidade ou “vestir a camisola”, o tempo de permanência e a capacidade de ser constante eram altamente valorizados. Mas o mundo de hoje não é assim, ele é volátil, altamente competitivo e está em constante mudança, aliás eu escrevo sobre essa nova realidade no meu artigo VUCA: O caminho para lá chegarmos e é por isto também que devemos abordar a entrevista de emprego de forma completamente antagónica, não numa relação de hierarquia, mas antes na expectativa de desenvolver uma relação do tipo win-win.

Sei pela experiência que tenho no acompanhamento especializado nestes contextos que o profissional português raramente faz perguntas e não o faz porque acredita genuinamente que se forem “sete cães a um osso” as suas perguntas podem ser associadas a uma espécie de personalidade inquisitiva e conflituosa que tem tendência para questionar o status quo sempre que pode, e portanto, o seu sucesso no processo pode ser colocado em causa. Embora, estas personalidades possam existir num contexto organizacional e a sua toxicidade possa ser crítica para o desempenho de uma equipa, por exemplo, a verdade é que por muito que possamos considerar o processo de selecção um momento sensível, ele é efectivamente o momento onde o empregador toma decisões, mas o profissional também.

A verdade é que se o empregador pode seleccionar, nós também o devemos fazer, e a única forma que temos de seleccionar é exactamente no mesmo estilo de abordagem que o empregador usa, colocando perguntas, verificando se aquela organização e contexto nos interessam e fazem match com quem somos. Esta é a nova realidade do mercado e é para lá que cada vez mais caminhamos, nós escolhemos a organização e a organização escolhe-nos a nós. A relação é de igual para igual e assente numa troca de valor que cada uma das partes traz para a equação. O relacionamento perdura enquanto as partes reconhecerem vantagens na sua manutenção. Simples.

Bem sei que Portugal ainda está muito longe deste cenário, mas isso não invalida a sua obrigação como profissional à procura de trabalho de fazer as perguntas críticas numa entrevista de emprego, pois é através delas que vai perceber como a organização está estruturada, como o recurso de forma generalizada é valorizado e tratado, o que é expectável que faça em termos de responsabilidades funcionais e o que é suposto dar em termos de horário, empenho e compromisso. Por este motivo, a entrevista de emprego não pode ser um acaso, um acto de espontaneidade e muito menos um momento de improviso teatral da sua parte.

Faça perguntas para seleccionar e garantir que é seleccionado.

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