A propósito da liderança

The-Impact-of-Leadership-on-Organizational-Perform

Uma das minhas amigas, arquitecta num organismo público, contava-me um destes dias que se tinha oferecido para organizar e realizar algumas das responsabilidades da sua chefia directa. A sua oferta não tinha nada a ver com bondade ou sequer ingenuidade, mas porque ela sabia que ajudar a sua chefia num momento em que esta lhe parecia literalmente assoberbada com trabalho era uma forma de ajudar o grupo e contribuir para o bem-comum.

Perguntou-me se eu achava que isso também poderia ser considerado “liderança” e após alguma hesitação disse-lhe que sim. Afinal contribuir de forma construtiva para o funcionamento da equipa no seu todo e influenciar de forma decisiva o resultado final pode ser também da responsabilidade implícita de um líder. Mas depois fiquei a pensar nisto…e fui ao dicionário. 

Palavras como supremacia, hegemonia e até comando são usadas nos principais dicionários portugueses para definir líder e liderança. Mas o mercado, e em especial o LinkedIn, parecem ter ganho vida própria e construíram uma outra narrativa à volta da liderança e do que é preciso para se ser líder.

A minha experiência no assessment de profissionais, mostrou-me inequivocamente que muitos profissionais em cargos de chefia possuem estruturas internas de personalidade que se traduzem em comportamentos contrários a qualquer versão romantizada do que um líder deve ser. Alguns sabem inclusive que não foram feitos para a posição, mas no fim do dia o salário paga o colégio dos filhos e o estilo de vida adquirido ao longo dos anos.

A experiência mostrou-me também que um verdadeiro líder não é feito das mesmas “coisas” em circunstâncias empresariais opostas, em segmentos de mercado diferentes e mesmo até estando num mesmo nível hierárquico, mas em departamentos com objectivos funcionais diversos.

A liderança não é um cargo, não é título e muito menos lhe confere qualquer estatuto profissional que o vai destacar dos demais no mercado de trabalho. A liderança é, na minha opinião, a conjugação feliz entre personalidade e contexto e neste sentido até o segurança que todos os dias nos abre a porta do edifício onde trabalhamos pode ter características de líder.

2 comentários em “A propósito da liderança”

  1. Nos tempos presentes, liderança é o tipo que recebe o maior ordenado, exige mais e que se vangloria com os resultados dos outros. É por isso que 99% dos líderes portugueses, se enterram mal surge uma contrariedade e não conseguem arranjar alguém que lhes resolva os problemas.
    É um problema terrível que as nossas universidades propagam, em gigantesca escala, principalmente nas áreas de gestão. “O líder é quem apresenta melhores resultados e que faz crescer a empresa.” (Guia do Empreendorismo, 2018, usado para todas as licenciaturas das áreas económicas, sociais e de gestão.)
    O líder devia ser o que faz a empresa funcionar e que mantêm os trabalhadores a desempenhar os papéis, para que foram contratados, sem precisar de oferecer prémios de desempenho ou convites para festas privadas…

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