Este país não é para meninos

Source: Clay Banks

Este país não é para meninos, nem para meninas. Se pensa que por ter estudado numa boa universidade ou por ter acabado com distinção o seu Mestrado vai obter vantagem no acesso a oportunidades profissionais desengane-se, pois, caso ainda não tenha dado conta a sua expectativa é fazer carreira em Portugal e neste país o mercado de trabalho é uma espécie de buraco negro que nem luz reflecte. Deixe-me fazer-lhe as “honras da casa”.

Estudar neste país serve para pouco, em especial quando há quem se passeie com um sobrenome que é um autêntico passe-livre no acesso às oportunidades. Se é o seu caso, espero honestamente que seja homem pois quando entrar no mercado de trabalho já leva de avanço cerca de 16% de diferença salarial em relação à sua concorrente mulher. Nada mau, pois não? E fica melhor! Quando chegar a quadro superior, mesmo sem qualquer pinga de mérito, a diferença salarial passa para uns estrondosos 27%. E quem diz que o Natal não é quando o homem quiser?

Não tem um sobrenome que lhe dê aquele factor extra de “qualificação” num processo de selecção? Não se preocupe, pois assim também não tem de se preocupar com a gestão de uma pseudocarreira que nem o seu patrão nem você sabem propriamente para que serve, para onde vai e a que propósito. Este país não é para crentes ou idealistas que acham que assim que concluírem os seus estudos vão ter uma casa de saída igual à dos outros, os do sobrenome lembra-se? Neste país, as mulheres ganham menos, trabalham mais horas, mas no fim de contas todos nós portugueses trabalhamos mais horas que os europeus e cada um de nós “sustenta” 3 velhos. A culpa é dos velhos? Não! A culpa é nossa porque achamos ingenuamente que tendo apenas 1 filho lhe poderemos “dar tudo o que não tivemos” como se dar tudo o que não tivemos fosse o epíteto da felicidade e realização individual.

Neste país, o salário base médio são cerca de 970€. Em muitas cidades nem para uma casa condigna dá quanto mais para quebrar esta tendência de envelhecimento e iludirmos aquilo que parece ser o nosso fim inevitável, ser uma “espécie em vias de extinção”. Nos últimos 10 anos, vivemos numa bolha de euforia e de repente o Portugal pobre e desqualificado passou a ser o da Web Summit, os das tecnológicas e dos recursos altamente qualificados que meio mundo quer. Deve ser só na Web Summit que eles andam porque infelizmente cerca de 21% da população portuguesa tem apenas o 1º ciclo de ensino, 10% da população portuguesa tem o 2º ciclo  e 21,5% da população portuguesa tem o 3º ciclo de ensino, o que dá um número “mágico” de cerca de 51,5% de população que poderíamos dizer que face ao mundo digital que vivemos, e que ainda ontem era VUCA e hoje já é BANI, é analfabeta, pelo menos funcionalmente.

Em Portugal, segundo dados de 2020, apenas 19,6% da população tinha o nível de ensino superior. Os empreendedores corajosos que pensem nisto antes de trazerem para cá os seus projectos megalómanos que depois se traduzem em nada. Disso já cá temos com fartura.

Meus caros, Portugal não é para meninos, nem para meninas. Mas muito menos para imigrantes, ainda que eles façam filhos com mais entusiasmo do que nós! Alguém tem de os avisar que o campo gravitacional deste buraco negro que é o nosso mercado de trabalho é tão intenso que eles vão ser aplacados pelos sobrenomes, pelos que adulteram o sobrenome para parecer que têm um como deve ser e por todos os Silvas e os Lopes que não podem esconder de onde vêm, mas que por terem um cartão de cidadão e não mérito têm prioridade no atendimento. É assim ao estilo do “põe-te na fila que eu já cá estava!”.

Alguém deveria avisar os imigrantes que não interessa se eles foram alunos e profissionais de mérito nas suas carreiras, pois neste país que não é para meninos têm de se resumir ao seu papel de estereótipo que tão bem lhes fica e que tanto faz pela saúde e auto-estima dos portugueses. Afinal a miséria também chega aos outros. Toma e embrulha!

Neste país que gostamos de dizer que é o estado-nação mais antigo da Europa, o mais trendy dos “óscares” do Turismo e do mundo tecnológico e já agora o bijoux mais querido do reformado estrangeiro que mesmo sendo de classe média no seu país aqui faz sempre um figurão, a vida é madrasta. E todos nós, com sobrenome, sem sobrenome e imigrantes, contribuímos diariamente com a nossa apatia e ligeireza para que nos comam por parvos.

É como diz o velho ditado pobrete, mas alegrete.

Fontes/Entidades: INE, PORDATA

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *