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Margarida Diogo Barbosa

Um blogue que aborda os recursos humanos numa perspectiva de todo.

27
Out20

O que deve saber sobre Portugal

Foto Pedro Santos

Sendo portuguesa não serei a pessoa mais indicada para lhe dar uma visão do que significa mudar de país, das dificuldades pessoais que vai encontrar quando deixar para trás a sua família e os que mais ama em busca de uma vida na qual acredita. Posso, no entanto, dar-lhe a minha visão do meu país, e especialmente do mercado de trabalho onde tenho experiência como especialista e também como profissional que possui carreira em Portugal.

A primeira noção que deve ter é que Portugal é, em todas as suas dimensões, um país pequeno, com recursos muito limitados e com um mercado de trabalho conservador e pouco dinâmico. Isto não significa que este mercado em particular não tenha uma oportunidade de carreira ou projecto de vida para si, mas os dados que em seguida lhe apresento são uma espécie de alerta na busca do seu sonho em vir morar em Portugal. 

 

Primeiro facto: O mercado de trabalho português.

Com um total de cerca de 10 milhões habitantes, Portugal tinha em 2019 pouco mais de 5 milhões de trabalhadores no activo considerando todas as faixas etárias, os diferentes segmentos de mercado e todos os níveis de qualificação escolar. No mesmo ano, o IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional) registou nos seus diversos centros apenas pouco mais de 11 mil novas oportunidades de trabalho. O que significa isto?

Bom na realidade, neste registo não está contabilizado o sector privado que recruta directamente no mercado de trabalho sem recorrer à ajuda do IEFP, mas mesmo que pudéssemos considerar o mesmo número de oportunidades registadas pelo instituto nacional, o mercado de trabalho português criaria anualmente cerca de 22 mil novas oportunidades para um total de pouco mais de 5 milhões de trabalhadores.

Portugal e outros países europeus precisam efectivamente de mão-de-obra estrangeira, mas qualquer empregador que tenha de recorrer a estrangeiros dará sempre preferência a profissionais com qualificações ao nível do ensino superior e com experiência profissional relevante, se possível acrescentando valor ou trazendo competências técnicas que são escassas neste mercado e cujo exemplo mais claro é o do segmento das TI. É importante que compreenda que se não tem qualificações ao nível do ensino superior ou experiência profissional relevante cairá na faixa de trabalho indiferenciado ou dito de outra forma extremamente mal pago.

 

Segundo Facto: As qualificações académicas na criação de oportunidades.

Em Portugal, e mesmo que lhe digam o contrário, a escolha do profissional para uma determinada função tem quase sempre em conta a universidade de referência dos estudos e o percurso académico realizado não apenas no tempo despendido para concluir o grau em causa, mas também a classificação final. As qualificações académicas em Portugal são importantes, não apenas para lhe garantir igualdade de acesso a oportunidades profissionais, mas também para lhe conferir um determinado valor de mercado que será fundamental para desenvolver carreira a longo termo no país. Se é cidadão estrangeiro as qualificações que obteve não serão a solução ou a porta de entrada para o mercado de trabalho português, mas também não seriam se um português quisesse ingressar no mercado de trabalho de outro país por exemplo.

As suas qualificações académicas servem para fundamentar, em contexto profissional, os conhecimentos e competências técnicas que é capaz de desempenhar na prática, perdendo o elemento de distinção que advém da história, antiguidade ou reputação da universidade onde estudou. Aqui o saber fazer será fundamental para que consiga não apenas uma oportunidade de trabalho, mas também para progredir na carreira e nesse sentido as suas qualificações poderão ser uma mais valia, pois serão a sua base de sustentação técnica e teórica. Veja como citar a universidade no currículo.

Por outro lado, se está a pensar vir estudar em Portugal como forma de facilitar o acesso ao mercado creio que é importante saber que as universidades portuguesas serão rápidas a ficar-lhe com o dinheiro da propina ou do curso escolhido, mas muito lentas na hora de actuarem como ponto de ligação com o empregador ou sequer a explicar-lhe como poderá procurar trabalho. 

Os que não têm muitas qualificações, mas querem arriscar na mesma, creio que o mais importante é saberem que talvez não consigam encontrar muitas oportunidades que paguem além do ordenado mínimo, mas que esta realidade não significa que não terão oportunidades para mudar as suas vidas para melhor. Aliás conheço muitos estrangeiros que vieram sem qualificações e que têm investido formação certificada pelo IEFP adquirindo novas competências profissionais já em função do que o mercado de trabalho nacional procura. Mais uma vez, planeamento e discernimento serão fundamentais.

 

Terceiro Facto: A questão da discriminação.

Em Portugal temos um ditado que diz que tudo o que é em demasia enjoa e que podemos perfeitamente aplicar à forma como a discriminação está enraizada na nossa estrutura social. Em Portugal não vai encontrar discriminação aberta e objectiva porque na realidade nós não gostamos de nada que seja em demasia ou que fuja ao socialmente tolerável e aceitável. Dizem que somos um povo de brandos costumes e talvez não seja totalmente descabido. A discriminação no nosso país faz-se recorrendo a métodos mais subtis e que estão muitas vezes escondidos na forma de resposta condicionada, seja através de uma piada de circunstância, seja através da escolha final num dado processo de selecção.

Conheço profissionais de recursos humanos que não abrem sequer curricula vitae de estrangeiros, mas serão certamente incapazes de o admitir abertamente porque o medo de fugirem ao socialmente aceitável é muito maior. Mais, muitos empregadores, se forem confrontados com dois curricula vitae semelhantes em tudo, escolherão quase sempre o cidadão nacional, em detrimento do estrangeiro, mesmo que este já tenha cidadania portuguesa, por exemplo. Tanto para um caso como para outro não cabe ao cidadão alvo de discriminação resolver esta percepção enviesada, mas antes saber como sobreviver e ter sucesso num mercado de trabalho que terá laivos de discriminação, ainda que subtis. Pela minha percepção e experiência só há uma coisa que pode fazer para diminuir a exposição a circunstâncias deste género: Integração. Faça a sua parte e faça parte da sociedade portuguesa, não se esconda no conforto dos seus conterrâneos. É uma ilusão pensar que está mais seguro.

Portugal precisa de estrangeiros tanto quanto um estrangeiro precisa de Portugal, mas a questão que deve colocar a si próprio é como é que esta relação pode ser proveitosa para os dois lados.

O conhecimento da realidade e a preparação são os primeiros passos para vencer as barreiras. Na live sobre o mercado de trabalho em Portugal, feita em parceria com o blog Que Seja Portugal da Camila Ciberi você encontra outras informações e dicas.

 

Fontes: IEFP/MTSSS-METD, PORDATA

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Este blogue é o resultado do meu percurso enquanto especialista em recursos humanos.

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