Pessoal ao pessoal. Profissional ao profissional.

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Um dos primeiros avisos que faço aos estagiários que acompanho é acerca da sua obrigação em serem capazes de diferenciar o que diz respeito à sua vida pessoal e o que diz respeito à sua vida profissional, ou por outras palavras, clientes e candidatos não são nossos amigos, mas devem sempre ser tratados de forma profissional, com o devido respeito e sentido de responsabilidade. Isto implica necessariamente sermos capazes de ter uma conduta adulta, mas muito essencialmente imparcial, avaliando cada comportamento de cliente e candidato numa perspectiva profissional e não pessoal.

Dito não é necessariamente feito. Em termos culturais, os portugueses têm uma predisposição crónica para analisar tudo pela perspectiva pessoal, mesmo o que está circunscrito ao meio profissional e caem invariavelmente na tentação de ver as acções alheias como uma espécie de vendetta ou ataque pessoal. Ainda que existam alguns que se comportam genuinamente desta forma, acredito que de um modo geral a nossa necessidade de “validação alheia” faz-nos cair no erro de acreditar que quando alguém desenvolve comportamentos que não se adequam à nossa expectativa, estes só podem significar uma traição à nossa lealdade.

Não é sequer imaginável para quem nunca trabalhou em recursos humanos, em especial em recrutamento, a quantidade de ocasiões em que tive de explicar a um profissional que o simples facto do seu empregador não estar constantemente a validar o seu trabalho não significa que não exista mérito profissional ou reconhecimento alheio. E quanto mais o factor cultural e social se entrelaça com a imaturidade pessoal, maior é o meu desafio com esse profissional, maior será o desafio desta pessoa na sua carreira.

A capacidade de racionalizarmos os comportamentos alheios é condição essencial para mantermos alguma sanidade mental na gestão da nossa vida pessoal e profissional, mas é por certo uma forma objectiva de analisarmos as situações não apenas do nosso ponto de vista, mas também do ponto de vista alheio.

Cuidar da nossa Carreira

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“P’ra se entender, tem que se achar”

Elza Soares (in Sei Lá Mangueira)

A nossa carreira é apenas mais um dos muitos reflexos de quem somos como pessoas, talvez por esse motivo ela reflicta inequivocamente o melhor e o pior de cada um de nós.

Uma gestão cuidada e pensada da nossa carreira implica por certo cuidarmos de quem somos como seres humanos, mas também resolvermos o que nos condiciona, o que nos trava no processo e sobretudo o que nos diminuiu quando competimos por melhores oportunidades com outros profissionais.

Cuide da sua carreira como cuidaria de quem mais ama.

Guias salariais à parte

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Num destes dias, um dos meus candidatos dizia-me que consultava ocasionalmente os diversos guias salariais disponíveis no mercado quando se queria posicionar em termos de expectativa profissional nas entrevistas. Perguntei-lhe se sabia como estes guias salariais eram desenvolvidos, respondeu-me que não.

Aconselhei-o a fazer perguntas a quem de direito porque certamente não me cabe a mim responder pelo trabalho e ética profissional de terceiros.

Common Ground do Projecto Nacional

O mercado de trabalho é uma espécie de common ground onde trabalhadores e empregadores se encontram e conciliam interesses individuais em razão de um objectivo comum. Esta conciliação de interesses assumiu nos últimos 200 anos uma multiplicidade enorme de dinâmicas, assentes na conjugação de relações de interdependência e interesses que necessariamente se tiveram de alinhar e estar em concordância com as regras deliberadamente impostas, o que significa que na prática criou-se uma clivagem entre o conceito abstracto do modelo idealizado de mercado de trabalho e a realidade diária e factual resultante dessas acções.

Podemos, por isso, presumir com segurança que o mercado de trabalho não é um ecossistema estático ou hermético, muito pelo contrário, é como se fosse um organismo vivo que adquiriu há já algum tempo vida e vontade própria. Neste sentido, e tal como os seres vivos, este espaço comum de trabalhadores e empregadores não é na sua maioria das vezes o que nós queremos que ele seja, mas antes o que resulta de todas estas dinâmicas.

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Mulheres Machistas

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Não são raras as ocasiões em que digo aos meus candidatos que compreendo algumas das decisões que tomaram e o que sentiram em determinados contextos profissionais, pois eu também já fui e continuo a ser candidata. É precisamente essa solidariedade que me conduz quando trabalho com profissionais, seja em processos de recrutamento, seja em programas de gestão de carreira.

Talvez o caso mais gritante seja o da discriminação em ambiente de entrevista e é sempre nesse tema que lhes conto o que lhe vou contar aqui, neste artigo. Há uns anos, numa fase final de um processo de recrutamento em que participei como candidata, fui entrevistada por uma senhora. Do rol infindável de perguntas, onde era inegável uma desconfiança latente por me ter apresentado na entrevista de vestido justo com uma cor vistosa, percebi que o seu único objectivo era encontrar algo que me eliminasse do processo selectivo. Sendo também recrutadora, sei que um pretexto não é realmente necessário quando não queremos avançar com “aquele” candidato, mas efectivamente eu tinha passado as duas fases preliminares do processo, uma delas com o administrador da empresa, e, portanto, teria de existir uma razão incontestável para a minha exclusão.

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Entrevistar é Cuidar

Entrevistar ou ser entrevistado é um processo que deve ser previamente preparado pelas partes para que não se resuma unicamente à colocação e resposta a perguntas sobre experiência ou competências profissionais. Isso não é entrevistar, é inquirir. É o que muitas vezes digo aos mais novos que comigo trabalham.

Entrevistar é um processo holístico ou mais abrangente, e por inerência mais complexo, muito mais subjectivo, talvez por esse facto não existam muitos recrutadores no mercado de trabalho que sejam genuinamente bons entrevistadores. É, em boa verdade, um processo de validação e interpretação que envolve tanto a vertente profissional do candidato, onde se incluem competências e experiência técnica, como a vertente pessoal ou a sua personalidade, as suas vivências pessoais e as suas expectativas individuais.  O mais difícil é explorar de forma subtil, mas eficaz os dois lados da mesma moeda.

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Escolhas…

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Alguém dizia que a vida são dois dias. Eu digo que mais tarde ou mais cedo somos chamados a responder pelas nossas escolhas ou pela falta delas, pois dificilmente conseguiremos escapar eternamente por entre os pingos da chuva.

Escolha! Independentemente de ter o aval, a concordância ou a compreensão dos que estão à sua volta. Escolha e respeite a sua verdade interior porque senão a Vida encarregar-se-á de lhe dar as escolhas que sobraram de quem já escolheu em livre consciência. Escolha! E faça o que verdadeiramente gosta!

O amor e a fibra da comunidade

Se queremos saber qual é a fibra da comunidade social em que vivemos sugiro que nos sentemos num café e conversemos casualmente com as pessoas à nossa volta. Por certo, não me refiro a conversas sobre a meteorologia ou futebol, mas aquelas em que as pessoas nos contam histórias das suas vidas e das pessoas que delas fazem parte. Essas sim nos dizem em que comunidade vivemos.

Nos anos em que vivi na província percebi que em aldeias ou vilas muito pequenas o único verdadeiro ponto de encontro e per si lugar social é o café, onde ao fim de semana todos se encontram e por aqui ficam a manhã toda à conversa. No início, confesso, os meus hábitos lisboetas carregados de condescendência não me permitiram ver as pessoas à minha volta e muito menos aquelas que estavam desejosas de conversar comigo. Tudo me parecia inconveniência e coscuvilhice até ter aparecido a D. Julieta.

Conheci a D. Julieta num sábado gelado em que o calor humano do café não deixava nenhuma cadeira disponível, a não ser a terceira da minha mesa onde eu estava a tomar o pequeno almoço com a minha filha. Perguntou-me se se podia sentar e eu ajeitei-lhe a cadeira.

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Factos da Vida

Estou a escrever um artigo sobre o mercado de trabalho português e embora esse facto só por si não tenha grande interesse, acabei por me lembrar de uma conferência sobre trabalho em que participei no longínquo ano de 2013.

Nessa altura, e perante representantes de sindicatos, defendi que dificilmente Portugal conseguiria voltar a alcançar uma taxa de desemprego abaixo dos 6%, não por falta de vontade, mas porque essencialmente a crise tinha tido o condão de expor um conjunto de fragilidades do nosso mercado de trabalho e sistema de apoio à inserção na vida activa que dificilmente se resolveriam sem uma reforma estrutural. Do que falava eu?

De profissionais desempregados de longa duração, sem qualquer capacitação técnica e intelectual e que na prática terão inúmeras dificuldades para regressar ao mercado. Ou melhor dizendo, profissionais que não sabem fazer nada que verdadeiramente se enquadre neste novo Mundo.

Em 2018, tivemos uma taxa de desemprego de cerca de 7%. É isto.

Sobre a felicidade

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Vivemos tempos estranhos. Não há nada que se consiga manter no seu estado mais genuíno e mais honesto. Há sempre os abutres à espreita que consideram interessante desmembrar para instrumentalizar em benefício dos seus interesses individuais ou particulares. Neste suposto mundo aberto e globalizado nada sobrevive à lei da interpretação superficial, assim foi com o coaching, com as frases inspiradoras ou até mesmo com as técnicas de auto-ajuda que entupiram as prateleiras de livrarias, papelarias e áreas de serviço.

Os tempos são tão estranhos que há organizações que julgam ser capazes de desenvolver e implementar práticas que fomentem a felicidade dos seus colaboradores, ora por construírem uma nova sede, ora por trazerem para dentro do espaço empresarial actividades supostamente lúdicas. Curiosamente nada que incentive o trabalhador a ter vida pessoal, mas antes tudo o que potencie o crescimento dos negócios e dos lucros do empregador. Só curiosamente. Não que haja alguma intenção por detrás da necessidade de definir o que são as “melhores práticas para a felicidade”.

Tinha pensado não escrever nada sobre isto. Tinha pensado. No entanto hoje tirámos esta fotografia e o que começou por ser uma sessão fotográfica corporativa e formal tornou-se naturalmente noutra coisa qualquer quando percebemos que havia adereços. O melhor de nós sobressaiu.

A felicidade é de cada um de nós. Não está, nem pode estar entregue à organização e ao empregador. Senão, todos sabemos o que vai acontecer, certo?

Créditos: NC Produções