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Margarida Diogo Barbosa

Um blogue que aborda os recursos humanos numa perspectiva de todo.

05
Jul19

Pessoal ao pessoal. Profissional ao profissional.

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Um dos primeiros avisos que faço aos estagiários que acompanho é acerca da sua obrigação em serem capazes de diferenciar o que diz respeito à sua vida pessoal e o que diz respeito à sua vida profissional, ou por outras palavras, clientes e candidatos não são nossos amigos, mas devem sempre ser tratados de forma profissional, com o devido respeito e sentido de responsabilidade. Isto implica necessariamente sermos capazes de ter uma conduta adulta, mas muito essencialmente imparcial, avaliando cada comportamento de cliente e candidato numa perspectiva profissional e não pessoal.

Dito não é necessariamente feito. Em termos culturais, os portugueses têm uma predisposição crónica para analisar tudo pela perspectiva pessoal, mesmo o que está circunscrito ao meio profissional e caem invariavelmente na tentação de ver as acções alheias como uma espécie de vendetta ou ataque pessoal. Ainda que existam alguns que se comportam genuinamente desta forma, acredito que de um modo geral a nossa necessidade de “validação alheia” faz-nos cair no erro de acreditar que quando alguém desenvolve comportamentos que não se adequam à nossa expectativa, estes só podem significar uma traição à nossa lealdade.

Não é sequer imaginável para quem nunca trabalhou em recursos humanos, em especial em recrutamento, a quantidade de ocasiões em que tive de explicar a um profissional que o simples facto do seu empregador não estar constantemente a validar o seu trabalho não significa que não exista mérito profissional ou reconhecimento alheio. E quanto mais o factor cultural e social se entrelaça com a imaturidade pessoal, maior é o meu desafio com esse profissional, maior será o desafio desta pessoa na sua carreira.

A capacidade de racionalizarmos os comportamentos alheios é condição essencial para mantermos alguma sanidade mental na gestão da nossa vida pessoal e profissional, mas é por certo uma forma objectiva de analisarmos as situações não apenas do nosso ponto de vista, mas também do ponto de vista alheio.

03
Jun19

Common Ground do Projecto Nacional

O mercado de trabalho é uma espécie de common ground onde trabalhadores e empregadores se encontram e conciliam interesses individuais em razão de um objectivo comum. Esta conciliação de interesses assumiu nos últimos 200 anos uma multiplicidade enorme de dinâmicas, assentes na conjugação de relações de interdependência e interesses que necessariamente se tiveram de alinhar e estar em concordância com as regras deliberadamente impostas, o que significa que na prática criou-se uma clivagem entre o conceito abstracto do modelo idealizado de mercado de trabalho e a realidade diária e factual resultante dessas acções.

Podemos, por isso, presumir com segurança que o mercado de trabalho não é um ecossistema estático ou hermético, muito pelo contrário, é como se fosse um organismo vivo que adquiriu há já algum tempo vida e vontade própria. Neste sentido, e tal como os seres vivos, este espaço comum de trabalhadores e empregadores não é na sua maioria das vezes o que nós queremos que ele seja, mas antes o que resulta de todas estas dinâmicas.

Portugal tem vivido nos últimos anos numa bolha de entusiasmo alavancada em grande parte pelo bom desempenho do sector do turismo, criando não só uma visão de crescimento global que me parece francamente irrealista como também uma expectativa hercúlea relativamente ao mercado de trabalho, ou em relação a empregadores e a trabalhadores. Esta aura quase mágica criada em redor dos unicórnios, das startups, dos empreendedores e do mundo hitech é interessante e um factor de visibilidade internacional, mas por enquanto parece-me apenas um conceito abstracto do modelo idealizado ou o que gostávamos que fosse e não necessariamente o que é porque felizmente Portugal não se resume apenas aos centros urbanos e o seu desenvolvimento estratégico não se centrará exclusivamente nestes, mas antes numa conjugação do interior com litoral, do urbano com a província e do grande com o pequeno.

Por isso, sempre e quando falamos em empreendedorismo, em unicórnios e em startups esquecemo-nos que vivemos num país cuja realidade demonstra que em 35 anos tivemos uma média anual de população desempregada de 7,9%, ou seja um universo de pessoas nunca inferior a 400 mil e nunca abaixo de uma percentagem de 3,9%. Se há 35 anos poderíamos usar a desculpa do analfabetismo que rondava os 18% da população portuguesa, pergunto-me que desculpa podemos usar hoje? A da crise? Ou a da conjuntura internacional? Portugal é um país pequeno, com recursos limitados, mas com sonhos grandes e isso não é mau, muito pelo contrário, porém precisamos de fazer um reality check sério sobre o estado da nação.

Essa análise séria e despudorada sobre o que alcançámos e o que temos hoje como mais-valias para nos posicionarmos de forma estratégica a nível nacional e internacional, passa igualmente por olhar para a configuração do mercado de trabalho, para a qualidade do nosso tecido empresarial e para o desempenho colectivo em termos de educação e aí os números também não têm a aura mágica em que todos nos refugiamos. Em 2018, dos cerca de 5 milhões de trabalhadores no activo, 83% trabalhava por conta outrem, em contraposição aos 4,7% que foram capazes de criar emprego. Dir-me-á que podemos e devemos ser empreendedores no seio da nossa organização, o que é teoricamente verdade, mas a realidade é que 48,4% da população activa em Portugal tem o ensino básico, ou seja, praticamente metade da nossa força de trabalho e uma parte substancial destas pessoas trabalham numa realidade organizacional em que 95% dos casos se trata de uma PME e bem sabemos como a vida decorre por lá. A sobreviver, sobrevivendo.

Quando há uns anos defendi num conjunto de iniciativas junto de entidades académicas que devíamos promover o intra-empreendedorismo e não o empreendedorismo, eu sabia bem do falava pois já tinha estudado os números. Ainda assim, o meu objectivo não é parecer um Velho do Restelo, mas antes contribuir de forma séria para uma reflexão mais profunda sobre como podemos renovar este espaço comum, através de políticas e reformas estruturais, para os tempos que se avizinham e que serão esses sim certamente desafiantes.

Acredito que qualquer política ou reforma terá necessariamente de passar pela estrutura core do nosso projecto nacional, ou melhor dizendo quem somos hoje, quem queremos ser no plano nacional e como queremos ser vistos a nível internacional; e em razão disto reformular e adaptar o nosso modelo educativo a uma nova realidade que começa a tomar o seu lugar aos poucos, isto é um mercado de trabalho altamente volátil e incerto, assente numa raiz tecnológica, na flexibilidade do trabalho e a operar em contextos económicos, políticos e sociais cada vez mais ambíguos.

Este shift nacional não acontece se não repensarmos de forma estratégica e colectiva o nosso papel neste mundo de futuro e não o reproduzirmos de forma coerente e sistemática através do nosso sistema educativo, não apenas para reduzir o número de profissionais que não consegue regressar à vida activa, mas também para permitir que estes ganhem novas competências e áreas de saber, alavancando de forma directa e indirecta negócios e ideias.

Nota: Publicado na InfoRH/RH Magazine

23
Mai19

Entrevistar é Cuidar

Entrevistar ou ser entrevistado é um processo que deve ser previamente preparado pelas partes para que não se resuma unicamente à colocação e resposta a perguntas sobre experiência ou competências profissionais. Isso não é entrevistar, é inquirir. É o que muitas vezes digo aos mais novos que comigo trabalham.

Entrevistar é um processo holístico ou mais abrangente, e por inerência mais complexo, muito mais subjectivo, talvez por esse facto não existam muitos recrutadores no mercado de trabalho que sejam genuinamente bons entrevistadores. É, em boa verdade, um processo de validação e interpretação que envolve tanto a vertente profissional do candidato, onde se incluem competências e experiência técnica, como a vertente pessoal ou a sua personalidade, as suas vivências pessoais e as suas expectativas individuais.  O mais difícil é explorar de forma subtil, mas eficaz os dois lados da mesma moeda.

Pessoalmente conheço poucos recrutadores que tenham esta perspicácia, capacidade para ir mais além e estabelecer um laço de entrega e confiança e decerto os recrutadores juniores não terão ainda sequer o nível de maturidade individual para reconhecer a importância desta prática e por que motivo as entrevistas devem ser sempre conduzidas assim.

Entrevistar pode e deve ser considerada uma forma de edificar uma relação entre duas pessoas porque tal como todas as outras formas, também esta se baseia numa condição sine qua non de reciprocidade e permuta. De um lado, entrega-se o "quem sou" e o "que sei fazer" e do outro lado responde-se com o "como podemos colaborar" e esse entrelaçado de conhecimento partilhado e expectativa será o ponto de partida para uma relação assente na boa-fé, na informalidade e na esperança futura.

É no sucesso obtido através da boa execução deste processo que entrevistador e entrevistado encontram resposta para interesses individuais. Por este motivo, um entrevistado que não confia e respeita a relevância do trabalho do entrevistador é a mesma coisa que um recrutador que sistematicamente não dá feedback aos seus candidatos. Um entrevistador que resume o seu trabalho de entrevista a perguntas directas, com resposta fechada é, por sinal, também a mesma coisa que um candidato que esconde informação relevante durante o processo de entrevista. Um mau serviço e uma perda de tempo para as partes.

Entrevistar é abrir a porta da associação e colaboração que pode em muitos casos significar cuidar de quem precisa de ser cuidado, a nível profissional ou até mesmo a nível pessoal. O brio e a ética que ambos devem colocar na construção dessa relação deve, obrigatoriamente, reflectir essa possibilidade.

07
Abr19

O devir das coisas

Ilustração: Alex Herrerias

“Não apagues os meus círculos”, segundo reza a lenda, terão sido as últimas palavras de Arquimedes antes de ser trespassado pela lança de um soldado romano, após a queda da cidade de Siracusa, por volta de 212 A.C. Ainda que não haja nenhuma evidência confiável de que estas tenham sido efetivamente as suas últimas palavras ou sequer que a sua morte tenha ocorrido da maneira descrita, a progressiva mistificação da personagem de Arquimedes por via da sua devoção aos estudos e trabalhos de pesquisa é não apenas um devir das coisas históricas, como também um ícone inspirador pelo seu legado à Humanidade, pela sua determinação, perseverança e naturalmente pela sua férrea curiosidade.

Arquimedes nasceu em Siracusa, atual Sicília, cidade onde viria a morrer e dedicou toda a sua vida ao estudo da Matemática, Física e Astronomia, sendo amplamente conhecidas as suas contribuições para a fundação da Lei da Estática e para o desenvolvimento do pensamento matemático quinhentista que culminou no surgimento de uma nova cultura científica. Porém, Arquimedes não é exemplo único e o nosso dever histórico para com os “pensadores originários” não se deve cingir apenas à sua importância ou legado universal para a Ciência, mas deve ser a base para uma reflexão mais cuidada das nossas sociedades e do que lhes verdadeiramente falta.

Confesso que também a mim me faltou durante muito tempo, diria anos, o interesse e a curiosidade por voltar à Filosofia e creio que só mesmo uma entidade divina poderá explicar como me desembaracei da disciplina no secundário. Contudo, a verdade é que nos últimos dois anos voltei a estudar Filosofia, não como objetivo intelectual, mas na sequência e como consequência das minhas próprias questões individuais, tanto a nível pessoal como a nível profissional. Se algo eu trouxe dos meus oito anos no interior foi a capacidade de parar para me questionar e observar o mundo à minha volta, o que só por si já significa “philosophia” ou o amor pela sabedoria.

Foi durante esse período mais intenso de busca interior, e estudando os grandes filósofos que constatei outro detalhe peculiar comum. Ainda que na Antiguidade Clássica o estudo dos “temas científicos” fosse entendido de forma diversa, Arquimedes, Anaximandro, Heráclito, Platão ou outro qualquer grande filósofo não eram apenas uma única “coisa”, mas antes várias e todas concorriam para o mesmo objetivo comum: produzir conhecimento científico e explicações para determinados fenómenos vivenciados, através da sabedoria prática ou método de observação. Não sendo especializados como hoje se parece amplamente valorizar puderam ser fiéis ao seu método de pesquisa eclético, manter um absoluto e permanente estado de curiosidade perante as evidências à sua volta, mas sobretudo e muito especialmente puderam através deste registo pouco especializado deixar um legado inqualificável e por vezes pouco estimado ou compreendido pela Humanidade e por cada um de nós de modo individual.

Arquimedes era um perfil multidisciplinar sem dúvida alguma; também o era Anaximandro que se dedicou ao estudo da Matemática e da Geografia, mas que se dedicava também à interpretação dos Astros, aliás é Anaximandro que introduz pela primeira vez o conceito da Lei do Karma; também o era Pitágoras, provavelmente um dos matemáticos mais malfadados para os estudantes portugueses, mas também fundador de uma seita espiritual e defensor acérrimo da teoria da imortalidade da alma, pensamento que Platão, também ele matemático e fundador da primeira instituição de educação superior do mundo ocidental, a Academia de Atenas, se viria a apropriar mais tarde.

Hoje o mundo é diametralmente oposto.  A participação cívica e intelectual é um dever praticamente desconhecido para a maioria dos cidadãos, o interesse genuíno e altruísta pelos outros e pelo mundo em nosso redor é tido na maioria dos casos como o resultado de uma personalidade ingénua e o valor das pessoas reside meramente na sua aptidão para serem especializadas ou pela sua capacidade de criação de valor acrescentado, em que o critério de mensurabilidade deve ser um benefício financeiro.

A isso assistimos nas organizações, nas profissões e com os profissionais que abdicam sistematicamente da sua humanidade em prol de uma especialização que os reduz a uma commodity e em que o seu preço é determinado pela lei da oferta e da procura ou por qualquer outra estrutura coletiva que lhes rouba a individualidade e sobretudo a oportunidade para serem mais do que apenas uma “coisa” só.

Pergunto-me que legado ou contribuição individual estamos nós a deixar à Humanidade ou às gerações futuras?

Sobre mim

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Biografia

Este blogue é o resultado do meu percurso enquanto especialista em recursos humanos. Aqui, este tema será abordado numa perspectiva de todo: as boas práticas, métodos, o que há de novo no mercado, as relações entre recrutador, candidatos e clientes.(...)

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