Ler: Resolução de Ano Novo

Autor Imagem: chuttersnap

Acompanhar um profissional a desenvolver boas práticas de carreira e pesquisa de emprego não é um trabalho técnico, mas uma relação one-to-one que assenta exclusivamente na confiança mútua. Sem dúvida que existe troca de informação e conhecimento, mas a experiência nesta área diz-me que o profissional só assume como “seu” o conhecimento que advém de uma fonte na qual confia, o conselheiro de carreira portanto.

Esta relação de confiança extravasa em larga escala o âmbito meramente profissional e a verdade é que existem muitos casos em que o sucesso na carreira – ou ausência dele – é apenas um reflexo de algo que acontece noutras dimensões, a pessoal por exemplo. Desta forma, é inevitável que este especialista, como é o meu caso, tenha de caminhar em território mais individual, particular e pessoal estabelecendo uma relação profissional que vai muito para além do contexto de gestão de decisões meramente do âmbito organizacional.

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2021. E agora?

O que deseja para 2021? Saúde, dinheiro ou simplesmente um pouco mais de sorte?

Se há algo que devemos aprender com 2020 é que a resposta que necessitamos não tem vida própria, mesmo que esteja completamente agrilhoado por todas as formas de validação e apoio moral e emocional, o que verdadeiramente precisa para estar em controlo da sua vida está simplesmente dentro de si.

Eu sei que ouvir a voz dos outros é mais rápido quando precisamos de ser confirmados e também sei por experiência que muitos nem sabem o que é a “voz interior”, pois bem vejo as suas expressões quando em sessão lhes digo para não a silenciarem. Mas ela está lá e talvez depois deste ano seja o momento para lhe perguntar o que precisa mesmo para 2021! É saúde? Será o dinheiro que lhe vai resolver todos os seus problemas? Ou quer deixar ao acaso e pedir à sorte que lhe dê um empurrão?

Eu quero deixar-lhe um desafio. Todos os dias quando sai de casa ou se senta ao computador para desempenhar um conjunto de tarefas a que damos usualmente o nome de profissão o que acha que elas representam, a sua vocação ou o seu trabalho? Sente que o faz tem algo de “sagrado” ou nem por isso?

Que 2021 lhe dê a inspiração para ouvir a sua voz interior. Bom Ano Novo! 

O que deve saber sobre Portugal

Foto Pedro Santos

Sendo portuguesa não serei a pessoa mais indicada para lhe dar uma visão do que significa mudar de país, das dificuldades pessoais que vai encontrar quando deixar para trás a sua família e os que mais ama em busca de uma vida na qual acredita. Posso, no entanto, dar-lhe a minha visão do meu país, e especialmente do mercado de trabalho onde tenho experiência como especialista e também como profissional que possui carreira em Portugal.

A primeira noção que deve ter é que Portugal é, em todas as suas dimensões, um país pequeno, com recursos muito limitados e com um mercado de trabalho conservador e pouco dinâmico. Isto não significa que este mercado em particular não tenha uma oportunidade de carreira ou projecto de vida para si, mas os dados que em seguida lhe apresento são uma espécie de alerta na busca do seu sonho em vir morar em Portugal. 

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Atalhar caminho

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Adoro atalhos.

Nada como usarmos o elevador em vez das escadas, é mais rápido e muito menos cansativo, afinal as escadas foram feitas para os que precisam de exercício físico. Se precisar excepcionalmente de usar o Metro, o Estado certamente não se importará que eu me cole a alguém que tem um título já pago, afinal os meus impostos também sustentam os “parasitas” da sociedade. Quando me espalho ao comprido no desempenho das minhas obrigações profissionais posso sempre deixar que o estagiário fique com o ônus da culpa, afinal ele ainda precisa de aprender mais do que eu.

Mas a nossa carreira não é um atalho, pois não? A nossa carreira e o que fazemos dela é uma espécie de caminho sinuoso em que a cada etapa encontramos um enigma ao qual precisamos de dar resposta. Por vezes não existe uma resposta óbvia e nalguns momentos estes enigmas não têm sequer resposta única. A Vida é assim mesmo, sem escolhas únicas e respostas óbvias.

Mas escolha o que escolher, não vá pelo atalho.

A dádiva dos Recursos Humanos

margarida-barbosa.com

A maior e mais profunda dádiva que um profissional dos recursos humanos pode receber é sem dúvida alguma a possibilidade e o privilégio de contactar com pessoas. É no contacto com as pessoas, com as suas limitações, competências e escolhas realizadas ao longo da sua vida e carreira que constatamos como as relações são um universo complexo, com uma elevada carga emocional e extremamente imprevisíveis.

Nunca tendo sido a melhor da minha profissão ou do meu segmento, fui sempre uma das mais interessadas em compreender os “porquês” inerentes a determinadas decisões de carreira ou de ordem pessoal. Sentia sempre um fascínio incomensurável pela compreensão até ao mais ínfimo pormenor pelas razões invocadas por aquele profissional ou ser humano. Esse fascínio foi a ligação que eu desenvolvi e mantive com a minha profissão. Não a necessidade de coscuvilhar sobre a vida alheia, mas tão-somente compreendê-la e dar-lhe alguma lógica.

Incorporando no meu dia-a-dia profissional a infinita possibilidade de encontrar versões diferentes de pessoas entendi como se tomam decisões opostas perante circunstâncias de vida ou carreira idênticas. Mais, entendi acima de tudo que decisões opostas perante circunstâncias de vida ou carreira idênticas não significam necessariamente “certo ou errado”, “bom ou mau” ou “verdade ou mentira”.

No que diz respeito à tomada de decisão perante factos ou circunstância particulares, cada um de nós escolhe caminhos com “geografias” diversas e essa é a essência da vida em si mesma. Para qualquer profissional de recursos humanos esta deve ser a verdade implícita: Aceitar, entender e incorporar esta multiplicidade de versões, escolhas e experiências. É um trabalho nunca acabado.

Este mar infinito de escolhas e caminhos foi sempre a minha grande motivação, o meu leme numa tempestade de emoções, decisões de vida ou carreira nem sempre compreensíveis ou simples para quem não lhes dá a devida importância. Contudo, pude também compreender que mesmo num mar de possibilidades ou escolhas, os profissionais podem e devem encontrar práticas mais ou menos sistematizadas e validadas que lhes permitam servir como âncora no momento da decisão.

Essas práticas, a par do conhecimento individual que o profissional tem sobre o segmento de mercado onde está inserido e a sua função, são a única ferramenta que lhes possibilita ser mais eficazes nos objectivos a alcançar. É este pormenor que faz toda a diferença entre os que têm sucesso e os que não têm.

Se está a perguntar a si mesmo por que motivo isto acontece, deixe-me dar-lhe a resposta. Em Portugal o desenvolvimento de um conceito de Educação Profissional ou de uma política de preparação para a integração no mercado de trabalho simplesmente não existe. Não existe e o mercado não sabe o que é, o que pode ser e fazer pelos profissionais mais jovens e mais grave ainda a maior parte dos intervenientes de recursos humanos não lhe dedica tempo algum do seu tempo ao seu estudo ou desenvolvimento.

A minha experiência no segmento em causa diz-me que o tema não é sexy, dá muito trabalho, requer muita reflexão e mais importante que tudo isto parece que não traz nenhum proveito financeiro imediato nem para as organizações nem para os profissionais do sector. Esta é a dura realidade. Contudo e porque vivemos tempos em que a taxa de desemprego é elevada, a concorrência é feroz entre profissionais e a pressão sobre os que estão empregados é real, devemos responsavelmente reflectir sobre estas práticas educacionais que tanta falta fazem aos profissionais, seniores ou finalistas à procura do primeiro emprego.

Por outro lado, não podemos esquecer também que o paradigma do emprego mudou radicalmente na última geração, em boa parte porque a percepção do trabalho mudou. Ou seja, nos últimos 30 anos a percepção de que um trabalhador era uma peça fundamental da estabilidade e subsequente crescimento da organização acabou, fazendo com que o trabalhador passasse a valer tão-somente o que representa para a organização em termos de números (produtividade, oportunidades de negócio, novas ideias, etc.)

Esta mudança de paradigma, este abanar do status quo vigente veio ditar uma mudança no ónus da gestão de carreira do profissional, significando que o próprio individuo passou a ser responsável pela sua própria carreira, algo que nunca acontecera enquanto a organização lhe proporcionava um “emprego para a vida”. Essa gestão não era necessária nem sequer importante.

Ora todas estas mudanças em termos de sistema, em termos da percepção do trabalho quer pelo profissional quer pelas organizações acabou por criar um vazio relativo à eficácia com que os profissionais navegam ou se integram no mercado de trabalho. Ninguém sabe muito bem o que é verdadeiramente eficaz na pesquisa de emprego, na mudança de profissão, na gestão de carreira, e por aí adiante. E ninguém sabe porque ninguém o estudou ou investiu o seu tempo a estudar este tema que é a Educação Profissional.

Tal como lhe disse anteriormente eu sempre quis compreender os “porquês” inerentes a determinadas decisões dos profissionais com quem me relacionava. A minha necessidade de compreensão apresentava-se com o mesmo vigor com que aos 7 anos resolvi perguntar ao meu pai o que estava por detrás do Universo. Como poderia eu validar o perfil dos meus candidatos se não os compreendia na tomada de decisão ou na gestão da sua carreira? (…)

(excerto do Manual de Pesquisa de Emprego, Margarida Diogo Barbosa, 2012)

Entrevistar é Cuidar

Entrevistar ou ser entrevistado é um processo que deve ser previamente preparado pelas partes para que não se resuma unicamente à colocação e resposta a perguntas sobre experiência ou competências profissionais. Isso não é entrevistar, é inquirir. É o que muitas vezes digo aos mais novos que comigo trabalham.

Entrevistar é um processo holístico ou mais abrangente, e por inerência mais complexo, muito mais subjectivo, talvez por esse facto não existam muitos recrutadores no mercado de trabalho que sejam genuinamente bons entrevistadores. É, em boa verdade, um processo de validação e interpretação que envolve tanto a vertente profissional do candidato, onde se incluem competências e experiência técnica, como a vertente pessoal ou a sua personalidade, as suas vivências pessoais e as suas expectativas individuais.  O mais difícil é explorar de forma subtil, mas eficaz os dois lados da mesma moeda.

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Recomendar sem falar

Um destes dias, num jantar de amigos, foi-me apresentada uma pessoa que reconheceu o meu nome de anúncios de emprego que tinha visto algures no Sapo Emprego. Após alguma hesitação,  e quando sentiu que tinha finalmente uma oportunidade perguntou-me timidamente se me podia recomendar a irmã que andava há algum tempo à procura de trabalho. 

Acenei-lhe positivamente com a cabeça e tentei alcançar a minha mala para lhe entregar um cartão profissional, mas antes que o conseguisse fazer, e num tom obviamente preocupado e comovido, diz-me “Desculpe fazer-lhe este pedido, mas há 2 anos que ela procura trabalho e está tão triste que anda a ser acompanhada pelo psicólogo”.

Compreendo a preocupação de irmão e sobretudo compreendo que há por aí muito recrutador que quer saber tudo antes sequer de conhecer a pessoa em causa, mas uma entrevista deve ser uma página em branco que é escrita entre o recrutador e o candidato. Esta página sem nada escrito à partida é fundamental para não potenciar condicionalismos, actos discriminatórios e sobretudo para aumentar a relação de confiança que deve nascer numa entrevista.

Se me quiserem recomendar amigos, colegas ou familiares não acrescentem informação desnecessária, pois na maioria dos casos não estarão a ajudar. Na realidade, eu não quero, nem preciso de saber nada da pessoa de início para gostar dela como profissional após a entrevista.