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Margarida Diogo Barbosa

Um blogue que aborda os recursos humanos numa perspectiva de todo.

17
Set19

O corredor da morte

Lembro-me que na minha escola uma das práticas instituídas era o uso do “corredor da morte” para premiar os delatores da turma, ou melhor dizendo os “chibos” que tanto queriam cair nas boas graças do Director de Turma que a única graça que alcançavam era a do código de conduta do grupo.

Num destes dias tentei explicar à minha filha a importância do grupo (não da equipa) para a aprendizagem de um conjunto de regras de socialização que são cruciais para nós enquanto pessoas e profissionais. Não sei se ela me compreendeu, já que a única coisa que me respondeu foi que as auxiliares não aprovavam essas “dinâmicas de grupo” na sua escola. Acredito que na minha também não tivessem aprovado caso fossemos apanhados.

Compreendo perfeitamente que aplicar códigos de conduta pela força parece coisa de outros meandros sociais, mas um código de conduta nunca fez mal a ninguém, pelo menos sabemos que conduta adoptar, ao respondermos a um estímulo social que nos é intrínseco enquanto humanos, o do grupo.

Aplicar a força para “educar” o membro tresmalhado do grupo é cruel, sem dúvida, mas também a forma mais directa de lhe mostrar que existem princípios que lhe serão necessários para o resto da sua vida, não apenas como pessoa, mas também como profissional. Falo de lealdade, de sentido de compromisso e de sentimento de pertença para não mencionar outros.

É caso para dizer que muitos não passaram no “corredor da morte”.

03
Jun19

Common Ground do Projecto Nacional

O mercado de trabalho é uma espécie de common ground onde trabalhadores e empregadores se encontram e conciliam interesses individuais em razão de um objectivo comum. Esta conciliação de interesses assumiu nos últimos 200 anos uma multiplicidade enorme de dinâmicas, assentes na conjugação de relações de interdependência e interesses que necessariamente se tiveram de alinhar e estar em concordância com as regras deliberadamente impostas, o que significa que na prática criou-se uma clivagem entre o conceito abstracto do modelo idealizado de mercado de trabalho e a realidade diária e factual resultante dessas acções.

Podemos, por isso, presumir com segurança que o mercado de trabalho não é um ecossistema estático ou hermético, muito pelo contrário, é como se fosse um organismo vivo que adquiriu há já algum tempo vida e vontade própria. Neste sentido, e tal como os seres vivos, este espaço comum de trabalhadores e empregadores não é na sua maioria das vezes o que nós queremos que ele seja, mas antes o que resulta de todas estas dinâmicas.

Portugal tem vivido nos últimos anos numa bolha de entusiasmo alavancada em grande parte pelo bom desempenho do sector do turismo, criando não só uma visão de crescimento global que me parece francamente irrealista como também uma expectativa hercúlea relativamente ao mercado de trabalho, ou em relação a empregadores e a trabalhadores. Esta aura quase mágica criada em redor dos unicórnios, das startups, dos empreendedores e do mundo hitech é interessante e um factor de visibilidade internacional, mas por enquanto parece-me apenas um conceito abstracto do modelo idealizado ou o que gostávamos que fosse e não necessariamente o que é porque felizmente Portugal não se resume apenas aos centros urbanos e o seu desenvolvimento estratégico não se centrará exclusivamente nestes, mas antes numa conjugação do interior com litoral, do urbano com a província e do grande com o pequeno.

Por isso, sempre e quando falamos em empreendedorismo, em unicórnios e em startups esquecemo-nos que vivemos num país cuja realidade demonstra que em 35 anos tivemos uma média anual de população desempregada de 7,9%, ou seja um universo de pessoas nunca inferior a 400 mil e nunca abaixo de uma percentagem de 3,9%. Se há 35 anos poderíamos usar a desculpa do analfabetismo que rondava os 18% da população portuguesa, pergunto-me que desculpa podemos usar hoje? A da crise? Ou a da conjuntura internacional? Portugal é um país pequeno, com recursos limitados, mas com sonhos grandes e isso não é mau, muito pelo contrário, porém precisamos de fazer um reality check sério sobre o estado da nação.

Essa análise séria e despudorada sobre o que alcançámos e o que temos hoje como mais-valias para nos posicionarmos de forma estratégica a nível nacional e internacional, passa igualmente por olhar para a configuração do mercado de trabalho, para a qualidade do nosso tecido empresarial e para o desempenho colectivo em termos de educação e aí os números também não têm a aura mágica em que todos nos refugiamos. Em 2018, dos cerca de 5 milhões de trabalhadores no activo, 83% trabalhava por conta outrem, em contraposição aos 4,7% que foram capazes de criar emprego. Dir-me-á que podemos e devemos ser empreendedores no seio da nossa organização, o que é teoricamente verdade, mas a realidade é que 48,4% da população activa em Portugal tem o ensino básico, ou seja, praticamente metade da nossa força de trabalho e uma parte substancial destas pessoas trabalham numa realidade organizacional em que 95% dos casos se trata de uma PME e bem sabemos como a vida decorre por lá. A sobreviver, sobrevivendo.

Quando há uns anos defendi num conjunto de iniciativas junto de entidades académicas que devíamos promover o intra-empreendedorismo e não o empreendedorismo, eu sabia bem do falava pois já tinha estudado os números. Ainda assim, o meu objectivo não é parecer um Velho do Restelo, mas antes contribuir de forma séria para uma reflexão mais profunda sobre como podemos renovar este espaço comum, através de políticas e reformas estruturais, para os tempos que se avizinham e que serão esses sim certamente desafiantes.

Acredito que qualquer política ou reforma terá necessariamente de passar pela estrutura core do nosso projecto nacional, ou melhor dizendo quem somos hoje, quem queremos ser no plano nacional e como queremos ser vistos a nível internacional; e em razão disto reformular e adaptar o nosso modelo educativo a uma nova realidade que começa a tomar o seu lugar aos poucos, isto é um mercado de trabalho altamente volátil e incerto, assente numa raiz tecnológica, na flexibilidade do trabalho e a operar em contextos económicos, políticos e sociais cada vez mais ambíguos.

Este shift nacional não acontece se não repensarmos de forma estratégica e colectiva o nosso papel neste mundo de futuro e não o reproduzirmos de forma coerente e sistemática através do nosso sistema educativo, não apenas para reduzir o número de profissionais que não consegue regressar à vida activa, mas também para permitir que estes ganhem novas competências e áreas de saber, alavancando de forma directa e indirecta negócios e ideias.

Nota: Publicado na InfoRH/RH Magazine

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Este blogue é o resultado do meu percurso enquanto especialista em recursos humanos. Aqui, este tema será abordado numa perspectiva de todo: as boas práticas, métodos, o que há de novo no mercado, as relações entre recrutador, candidatos e clientes.(...)

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