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Margarida Diogo Barbosa

Um blogue que aborda os recursos humanos numa perspectiva de todo.

14
Fev20

O luto profissional

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O Conceito

Em Portugal, o conceito de luto profissional é uma realidade incógnita, uma espécie de “não-tema” que não permite que se criem as condições e as ferramentas de apoio e suporte, não apenas para os profissionais em processo de luto, mas também para a sua necessária compreensão e de como este pode ser endereçado em todas as suas dimensões.

Culturalmente, o conceito de “luto” está profundamente associado ao processo posterior à morte de um ente querido, mas este processo de perda pelo qual qualquer individuo pode passar ao longo da sua vida pode estar também associado a outros tipos de perda, nomeadamente a perda de um animal de estimação. A perda e os processos subjacentes podem, na realidade, constituir uma teia bastante complexa e merecem, por isso, um tratamento diferenciado e específico a cada caso. O mesmo acontece com o luto profissional.

Sempre e quando um profissional perde o seu trabalho sabemos à partida que o seu contexto profissional, pessoal e familiar é modificado, ocorrendo deste modo, e necessariamente, uma reorganização e redefinição do seu papel nestas diferentes dimensões da sua vida. Cada profissional vivencia de forma diferente, mediante a cultura, o meio em que está inserido e o próprio contexto da perda, o seu processo de luto profissional. Ao longo da minha carreira, tenho acompanhado profissionais com processos bastante complexos e profundos de luto profissional cuja iniciativa de deixar o trabalho foi sua; outros cujo despedimento não foi da sua iniciativa, mas foi encarado e integrado como uma nova oportunidade para relançar determinadas áreas ou projectos de vida que haviam ficado para segundo plano em detrimento das obrigações para com o empregador.

Não há, na minha experiência, uma relação directa entre a razão ou iniciativa do despedimento e o processo de luto, mas existem fatores de desgaste que se acumulam ao longo do tempo e que contribuem de forma bastante perceptível para este processo de luto e de perda, muitas vezes assente em sentimentos de injustiça, incompreensão ou traição.

O luto profissional reflecte assim uma necessidade básica de vinculação e, por conseguinte, de reconhecimento de valor que é corrompida com a interrupção do significado de segurança na vida que é a profissão ou carreira. Tal como no luto mais tradicional, também o luto relacionado com o trabalho está assente num sistema de crenças e valores culturais e sociais que se traduzem numa espécie de modelo de reconhecimento formal e de valor do recurso para o mercado de trabalho; quando a perda profissional acontece este sistema fica notoriamente comprometido, ou dito de outra forma, o profissional passa a ser visto como uma espécie de liability para a sua organização.

Posso testemunhar que o processo de luto profissional é real e tangível, em especial quando o profissional evidencia sintomas claros de descontrolo emocional, ainda que de forma temporária, pelo que o luto profissional é igualmente na sua essência muito pessoal, sem tempo estimado de resolução e com nuances que variam de profissional para profissional.

Isto significa que cada um de nós, tal como quando perdemos tragicamente um ente querido, precisamos de um tempo diferente para responder aos desafios inerentes ao processo de perda que resulta de um despedimento ou desligamento profissional, independentemente do contexto factual que precedeu essa decisão ou das circunstâncias posteriores ao fim do vínculo que existia entre as partes.

A perda do trabalho implica uma reorganização da vida do profissional, e tal como no luto tradicional, a interrupção do significado daquela profissão, da convivência com aquelas pessoas e do mindset organizacional que predominou durante algum tempo, nalguns casos anos, pode ter efeitos perversos na autoestima, na autoconfiança e em última análise no discernimento para ser capaz de tomar decisões valiosas e de impacto positivo ou de projecção no futuro.

 

A importância do processo de luto

Sabendo que cada individuo tem o seu próprio processo interno de integração da perda existem tradicionalmente quatro estádios ou fases no luto para que a perda da vinculação seja reconhecida e a recuperação se dê por concluída e que podem ser aplicados também ao luto profissional.

A primeira fase é o choque onde o profissional não reconhece a perda. De seguida entra a fase de protesto em que o profissional procura e anseia por respostas de conforto. A terceira fase é o desespero que ocorre quando o profissional se apercebe que a perda é permanente. A quarta e última fase é a aceitação que ocorre quando o profissional se adapta à perda e começa a retomar o seu funcionamento normal.

A adaptação ao luto é o resultado de uma interação entre duas forças de vinculação opostas: a necessidade de manter a proximidade com a organização ou trabalho perdido e a necessidade de desvinculação para investir noutras oportunidades profissionais ou organizações.

Só quando ocorre a aceitação da perda e a subsequente natural adaptação a uma nova realidade pessoal e profissional o individuo está em condições de retomar o seu percurso de carreira ou encetar novos caminhos.

E só também neste momento o especialista de carreira pode fazer a sua intervenção ao nível do acompanhamento do profissional no desenvolvimento de boas práticas que lhe permitam criar novas oportunidades, ou dito de outra forma, uma nova realidade profissional que possa proporcionar um novo sistema de vinculação e de reconhecimento.

17
Set19

O corredor da morte

Lembro-me que na minha escola uma das práticas instituídas era o uso do “corredor da morte” para premiar os delatores da turma, ou melhor dizendo os “chibos” que tanto queriam cair nas boas graças do Director de Turma que a única graça que alcançavam era a do código de conduta do grupo.

Num destes dias tentei explicar à minha filha a importância do grupo (não da equipa) para a aprendizagem de um conjunto de regras de socialização que são cruciais para nós enquanto pessoas e profissionais. Não sei se ela me compreendeu, já que a única coisa que me respondeu foi que as auxiliares não aprovavam essas “dinâmicas de grupo” na sua escola. Acredito que na minha também não tivessem aprovado caso fossemos apanhados.

Compreendo perfeitamente que aplicar códigos de conduta pela força parece coisa de outros meandros sociais, mas um código de conduta nunca fez mal a ninguém, pelo menos sabemos que conduta adoptar, ao respondermos a um estímulo social que nos é intrínseco enquanto humanos, o do grupo.

Aplicar a força para “educar” o membro tresmalhado do grupo é cruel, sem dúvida, mas também a forma mais directa de lhe mostrar que existem princípios que lhe serão necessários para o resto da sua vida, não apenas como pessoa, mas também como profissional. Falo de lealdade, de sentido de compromisso e de sentimento de pertença para não mencionar outros.

É caso para dizer que muitos não passaram no “corredor da morte”.

26
Ago19

Profissional mais Pessoal

Estou de férias. Este facto só por si não significa que estou ausente do meu contexto profissional. A verdade é que apesar de estar de férias, hoje fui almoçar ao meu local de trabalho. Vamos lá compreender esta coisa de gostarmos do nosso empregador.

Talvez este acontecimento tenha despoletado interiormente outra reflexão, o estado de ausência permanente com que os recrutadores desempenham o seu papel no mercado de trabalho. Ou dito de outra forma, mandam uns emails aos candidatos, mas não querem ser incomodados, querem que os profissionais vão aos seus clientes, mas não querem dizer como correu (acho que se chama feedback!).

Quem me conhece sabe que não tenho uma presença disseminada nas redes sociais, mas apenas um Instagram. E às vezes até com "esse" a relação é conflituosa. A "coisa" da marca pessoal deve ser tratada com o respeito e expertise necessários e o Instagram foi o único que cumpriu esses critérios.

Ora, se um recrutador "ausente" não se dá a conhecer, não estabelece verdadeiros laços de confiança não se comprometendo com nada, muito menos com candidatos, então é altura de quebrar as regras convencionadas e tornar isto mais pessoal.

Partilho para quem queira conhecer-me e trocar uns follows. 

Instagram Margarida Diogo Barbosa

05
Jul19

Pessoal ao pessoal. Profissional ao profissional.

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Um dos primeiros avisos que faço aos estagiários que acompanho é acerca da sua obrigação em serem capazes de diferenciar o que diz respeito à sua vida pessoal e o que diz respeito à sua vida profissional, ou por outras palavras, clientes e candidatos não são nossos amigos, mas devem sempre ser tratados de forma profissional, com o devido respeito e sentido de responsabilidade. Isto implica necessariamente sermos capazes de ter uma conduta adulta, mas muito essencialmente imparcial, avaliando cada comportamento de cliente e candidato numa perspectiva profissional e não pessoal.

Dito não é necessariamente feito. Em termos culturais, os portugueses têm uma predisposição crónica para analisar tudo pela perspectiva pessoal, mesmo o que está circunscrito ao meio profissional e caem invariavelmente na tentação de ver as acções alheias como uma espécie de vendetta ou ataque pessoal. Ainda que existam alguns que se comportam genuinamente desta forma, acredito que de um modo geral a nossa necessidade de “validação alheia” faz-nos cair no erro de acreditar que quando alguém desenvolve comportamentos que não se adequam à nossa expectativa, estes só podem significar uma traição à nossa lealdade.

Não é sequer imaginável para quem nunca trabalhou em recursos humanos, em especial em recrutamento, a quantidade de ocasiões em que tive de explicar a um profissional que o simples facto do seu empregador não estar constantemente a validar o seu trabalho não significa que não exista mérito profissional ou reconhecimento alheio. E quanto mais o factor cultural e social se entrelaça com a imaturidade pessoal, maior é o meu desafio com esse profissional, maior será o desafio desta pessoa na sua carreira.

A capacidade de racionalizarmos os comportamentos alheios é condição essencial para mantermos alguma sanidade mental na gestão da nossa vida pessoal e profissional, mas é por certo uma forma objectiva de analisarmos as situações não apenas do nosso ponto de vista, mas também do ponto de vista alheio.

Sobre mim

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Biografia

Este blogue é o resultado do meu percurso enquanto especialista em recursos humanos.

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