O corredor da morte

Lembro-me que na minha escola uma das práticas instituídas era o uso do “corredor da morte” para premiar os delatores da turma, ou melhor dizendo os “chibos” que tanto queriam cair nas boas graças do Director de Turma que a única graça que alcançavam era a do código de conduta do grupo.

Num destes dias tentei explicar à minha filha a importância do grupo (não da equipa) para a aprendizagem de um conjunto de regras de socialização que são cruciais para nós enquanto pessoas e profissionais. Não sei se ela me compreendeu, já que a única coisa que me respondeu foi que as auxiliares não aprovavam essas “dinâmicas de grupo” na sua escola. Acredito que na minha também não tivessem aprovado caso fossemos apanhados.

Compreendo perfeitamente que aplicar códigos de conduta pela força parece coisa de outros meandros sociais, mas um código de conduta nunca fez mal a ninguém, pelo menos sabemos que conduta adoptar, ao respondermos a um estímulo social que nos é intrínseco enquanto humanos, o do grupo.

Aplicar a força para “educar” o membro tresmalhado do grupo é cruel, sem dúvida, mas também a forma mais directa de lhe mostrar que existem princípios que lhe serão necessários para o resto da sua vida, não apenas como pessoa, mas também como profissional. Falo de lealdade, de sentido de compromisso e de sentimento de pertença para não mencionar outros.

É caso para dizer que muitos não passaram no “corredor da morte”.

O amor e a fibra da comunidade

Se queremos saber qual é a fibra da comunidade social em que vivemos sugiro que nos sentemos num café e conversemos casualmente com as pessoas à nossa volta. Por certo, não me refiro a conversas sobre a meteorologia ou futebol, mas aquelas em que as pessoas nos contam histórias das suas vidas e das pessoas que delas fazem parte. Essas sim nos dizem em que comunidade vivemos.

Nos anos em que vivi na província percebi que em aldeias ou vilas muito pequenas o único verdadeiro ponto de encontro e per si lugar social é o café, onde ao fim de semana todos se encontram e por aqui ficam a manhã toda à conversa. No início, confesso, os meus hábitos lisboetas carregados de condescendência não me permitiram ver as pessoas à minha volta e muito menos aquelas que estavam desejosas de conversar comigo. Tudo me parecia inconveniência e coscuvilhice até ter aparecido a D. Julieta.

Conheci a D. Julieta num sábado gelado em que o calor humano do café não deixava nenhuma cadeira disponível, a não ser a terceira da minha mesa onde eu estava a tomar o pequeno almoço com a minha filha. Perguntou-me se se podia sentar e eu ajeitei-lhe a cadeira.

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