Maldita curva de aprendizagem

Quando é que uma curva de aprendizagem numa função se começa a achatar? Qual é o tempo necessário para que um profissional possa finalmente atingir o patamar dos pares mais antigos no desempenho das mesmas funções?

Qualquer profissional de recursos humanos devia conseguir responder a isto. Parece-me simples, eu tenho pessoas em grupo, essas pessoas encaixam em funções que eu conheço bem e se calhar até ajudei a desenhar; a organização para a qual cooperamos possui por inerência uma determinada dinâmica operacional e eu como profissional dos recursos humanos, orientada a pessoas e só pessoas, conheço bem os seus meandros e como “olear a máquina” e adaptar os processos de aprendizagem às pessoas. A curva de aprendizagem, dir-me-á, depende de cada pessoa, sim. Então deixe-me contar-lhe 3 breves histórias que podiam acontecer consigo.

1ª história: Um profissional na sua avaliação anual fica a saber que não será promovido nem aumentado. Quando questiona os recursos humanos por que motivo os seus pares afinal ganham mais 500€, ainda que nenhum também tenha sido promovido, dizem-lhe que é porque estão há mais tempo na empresa. Essa pessoa naturalmente pode concluir que devia ter nascido em 1919, pois é uma data suficientemente longínqua para que alguém que já nessa altura trabalhasse não fosse verdadeiramente sua concorrência agora; assim certamente ganharia mais ou pelo menos o mesmo! Malditos pais que não se entusiasmaram mais cedo.

2ª história: Um profissional na sua avaliação anual fica a saber que não será promovido nem aumentado. Quando questiona os recursos humanos por que motivo os seus pares afinal ganham mais 500€, ainda que nenhum também tenha sido promovido, dizem-lhe que é porque estão há mais tempo na empresa. Inconformado pergunta se não ter nascido em 1919 pode ter contribuído para o facto de ganhar menos, e por essa lógica nunca conseguir chegar ao patamar dos outros. Então é aí que os recursos humanos se lembram da “curva da aprendizagem”. Essa maldita curva que não é prima do COVID, mas mata uns quantos pelo caminho. Não é que lhe estejam a dizer que é burro, mas agora não vai dar.

3ª história: Um profissional com uma deficiência física, na sua avaliação anual fica a saber que não será promovido nem aumentado. Quando questiona os recursos humanos por que motivo os seus pares afinal ganham mais 500€, ainda que nenhum também tenha sido promovido, dizem-lhe que é porque estão há mais tempo na empresa e porque a sua curva de aprendizagem ainda não achatou. Bem vistas as coisas a organização precisa de um recurso que faça o trabalho que nenhum outro colaborador quer fazer, mas que também é muito importante para a organização e que mostra nas melhores revistas da especialidade que estão todos focados na integração e na igualdade.

O profissional pode naturalmente assumir “Até quando é que a falta de vergonha na cara e falta de ética profissional vai perdurar?”. Ao que parece a tesão à volta da responsabilidade social e das quotas morre quando o “deficiente” tem ambição profissional. Ninguém sabe como lidar com este “ser” que teima em exigir as mesmas oportunidades na vida. Mais uma vez, a culpa é dos pais certamente.

As avaliações de carreira em Portugal são como os engates às 3h da manhã num bar, é preciso sorte!

Há muito tempo que lido com pessoas, com as suas expectativas e com as suas ambições pessoais e profissionais para saber que uma avaliação, uma progressão, um percurso profissional ou uma carreira em última instância nada têm a ver com sorte. A realidade é tão diferente do que muitos “pintam” na timeline do LinkedIn e das revistas.

Até quando as organizações vão usar estas desculpas para encobrir a sua própria incompetência?

Até quando é que você como profissional vai pactuar com isto? Ou acha que é normal ou aceitável que em Portugal ainda se perpetuem estes comportamentos como se fossem parte qualquer de uma “natural” política de recursos humanos?

Amanhã pode ser a sua data de nascimento que não está no sítio certo do calendário ou tão simplesmente a sua curva de aprendizagem que demora mais tempo a achatar. Pense nisso!