© Jonathan McHugh 2020

Vocação, Carreira ou Profissão. O que vai ser?

Para alguém que procura respostas para dúvidas que se foram acumulando ao longo dos anos, o caminho pode ser longo e desafiante. Para quem vive com estes anseios, não acredito que algumas sessões de coaching ou mesmo de psicoterapia desenlacem os nós resultantes de decisões levadas a cabo e reforçadas durante anos e muito menos que permitam ao individuo encontrar todas as respostas ou variáveis possíveis para as dúvidas que traz consigo. O caminho é longo, desafiante, mas sobretudo deve ser visto como um compromisso para a Vida. Essa procura deve ser permanente e não dependente de qualquer serviço de coaching, psicoterapia e desenvolvimento de carreira, afinal a responsabilidade de tais feitos é pessoal e particular. Estes serviços são um ponto de partida, uma ponte para atravessar o rio da indecisão e começar a ver mais além, não são um fim.

Um dos maiores problemas que identifico nos profissionais com que trabalho é que raramente sabem medir o valor do que têm, assim como têm muita dificuldade em saber delimitar concretamente o que construíram em contexto profissional e a que corresponde em termos práticos ou como daí podem resultar determinados benefícios longamente ambicionados. Muitos acreditam que têm uma carreira, mas apenas têm uma profissão exercida ao longo de vários anos, em diferentes organizações e também em diferentes segmentos de mercados. Outros primam pela modéstia e não percebem que já podem afirmar que o resultado de anos no exercício de uma determinada profissão já tem contornos de carreira. Poucos sabem qual é a sua vocação e ainda menos acreditam que estão alinhados em termos profissionais e pessoais com esta. Esta visão difusa é, na minha opinião, o produto de sociedades assentes no factor de especialização que deixa muito pouco espaço para a autorreflexão e autoconhecimento como diferencial adicional de crescimento do individuo. Por crescimento individual entenda-se a todos os níveis e não estritamente profissional. Ou seja, se quer conhecer-se será pelos seus próprios meios e resiliência porque em meio profissional não vai encontrar contextos que o potenciem ou pelo menos que não o dificultem, a menos que miraculosamente isso pode trazer mais-valias para a organização.

O objectivo deste artigo é clarificar, segundo a minha visão, os que são estes conceitos, como é que estes se relacionam com as suas circunstâncias de vida actuais e também de alguma forma incentivar esta reflexão individual e pessoal. No meu entendimento, nenhum é melhor que o outro, mas antes constituem-se como partes de um processo, flexível e mutável, que pode ou não coincidir no tempo e espaço. O que lhe quero transmitir é que não deve procurar necessariamente estar alinhado com uma vocação ou com um sentido de carreira, por exemplo, procure antes o que lhe dá satisfação e coincide com quem é e isso pode traduzir-se em não alinhar cegamente com o processo na sua totalidade, mas ao invés usufruir do que a parte ou algumas das partes de lhe oferecem. Desde e quando seja positivo na sua Vida. Nem todos os profissionais encontrarão uma vocação, mas isso não é sinónimo de infelicidade ou insucesso, ainda que devam estar cientes como o mundo à nossa volta está a evoluir.

Num estágio mais simplificado está a profissão que muitos reconhecem como ofício, ocupação ou saber. Outros, talvez os das gerações dos nossos pais e avós, reconhecem como emprego. Neste estágio, o factor estruturante é a constância, não apenas na execução exímia de um determinado conjunto de skills no tempo, por parte do trabalhador, mas como retribuição organizacional, a segurança que esta constância lhe proporciona, a si e à sua família. Essa é a moeda de troca primordial entre as partes, tendo dela beneficiado pelo menos duas gerações de profissionais, e por exemplo, ter possibilitado o surgimento de uma classe média que permitiu nos países ocidentais reforçar os sistemas democráticos no pós-guerra. Embora possam existir neste estágio profissionais com ambição, curiosidade e uma certa necessidade de mudança e inovação, estes factores não são dominantes porque são vistos como disruptivos e não num sentido positivo como hoje lhe atribuímos esse valor.

No estágio seguinte, o da carreira, o que é importante é a ambição, não apenas do indivíduo, mas também do contexto de mercado do qual este faz parte. A carreira é o percurso profissional resultante da acumulação de experiências por via da profissão que se escolheu e para que isso possa acontecer é inevitável que o profissional queira e procure mais, trabalhando o seu ofício sob diferentes abordagens e perspetivas e até em diferentes organizações e segmentos de mercado. Outro factor distintivo, ainda que menos importante, é o da formação ou aprimoramento das competências trazidas para o percurso que se está a realizar e é aqui que percebemos que existe, pela primeira vez, uma necessidade intrínseca ou particular de melhoria ou pelo menos de fugir à acomodação proveniente do estágio anterior.

É expectável que no final da sua carreira possa existir um sentimento de concretização e alcance de um reconhecimento individual e colectivo como corolário do percurso realizado ao longo de várias décadas. Neste estágio, o caminho não é uma linha reta e não é palmilhado sempre em sentido ascendente, sobretudo porque o profissional chamou à sua responsabilidade a gestão estratégica dos seus skills e competências pessoais necessários ao exercício do ofício, por contraposição do estágio anterior em que a gestão estava totalmente do lado do empregador ou organização. O profissional procura no estágio da carreira criar e desenvolver uma intenção, ainda que ainda muito insipida ou ténue relativamente ao resultado final. A ambição como factor estruturante visa o aprofundar de uma intenção, mas na generalidade dos casos o trabalhador não sabe que resultado final é esse, ou dito de outra forma, que significado etéreo teve o investimento e compromisso feito naquele percurso profissional.

No último estágio está a vocação, significando o que nos é natural e para o qual o nosso espírito tem uma tendência ou propensão natural, e por espírito eu refiro-me à coisa incognoscível que anima o ser vivo ou tão simplesmente a nossa essência. Para os indivíduos que chegam ao último estágio, o mais importante é o significado, é a compreensão e a integração de quem somos, o que sabemos fazer e o que queremos ser. Afinal quem somos neste mundo e como contribuímos para um todo maior e muito complexo que nós.

Neste estágio, o individuo procura encontrar o seu papel e a sua missão junto da sua família, comunidade, organização e mundo, ou seja, o individuo não é visto e tido como partes separadas, mas sim como um organismo que está integrado e que pertence a algo transcendental à sua própria existência. A sua profissão é apenas uma das peças que fazem parte de um mecanismo maior e mais complexo e a carreira é o resultado natural do equilíbrio da profissão com todas as outras peças. A relação do trabalhador com a organização é baseada num pressuposto de interesse e benefício mútuo que assenta, por sua vez, num princípio de igualdade entre as partes e numa relação de boa-fé. A relação dura enquanto o interesse existir e os benefícios se mantiverem. Acredito que nos próximos 100 anos o modelo de trabalho vai evoluir para uma sintonização com valores maiores que a nossa individualidade e que o ser humano vai procurar cada vez mais ser visto como um asset que deve ser valorizado e respeitado em todas as suas dimensões.

O desafio que hoje vivemos é que para podermos mudar para uma nova forma de encarar o trabalho como parte constituinte de algo maior e com significado nas nossas vidas tivemos de deixar cair visões mais primárias, nomeadamente a visão associada à profissão. Para poder vivenciar a “peça” profissional com base na constância e na segurança oferecida pela organização à troca da gestão integral do nosso “ser” profissional vai ter de pagar um preço por isso, pois o mundo procura seres que consigam criar valor com base numa flexibilidade e permanente capacidade de adaptação que resulta obviamente numa profunda disponibilidade para a aprendizagem e actualização. Essa é uma das grandes lições da pandemia.

O profissional hoje deve procurar compreender a relação entre quem é, o que sabe fazer e o que quer fazer, não apenas com a sua “peça” profissional, mas com a sua Vida em geral. Só assim pode encontrar significado para a sua existência.

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